
As flores chegavam sempre depois da violência.
Rosas vermelhas. Às vezes brancas. Com bilhetes escritos à mão: “Desculpa.” “Eu amo-te.” “Prometo que vou mudar.”
Sofia agarrava-se a essas palavras porque precisava de acreditar que a pessoa por quem se apaixonou ainda existia.
No início, André parecia carinhoso. Protetor. Dizia que nunca tinha amado ninguém daquela forma. Mas o amor rapidamente começou a transformar-se em posse. Vieram os ciúmes. As acusações sem motivo. As discussões por coisas pequenas. Se Sofia chegasse mais tarde do trabalho, ele irritava-se. Se falasse demasiado com alguém, fazia perguntas durante horas. Depois vieram os insultos.
“És inútil.” “Ninguém vai gostar de ti como eu gosto.” “Sem mim, não és nada.”
A primeira agressão física aconteceu depois de um jantar de família. André pediu desculpa imediatamente. Chorou. Disse que tinha perdido o controlo.
No dia seguinte apareceram flores. E durante algum tempo tudo parecia perfeito outra vez. Era isso que confundia Sofia. Os dias bons faziam-na duvidar dos maus.
Até perceber que o ciclo se repetia sempre: tensão, explosão, culpa, promessas… e novamente tensão.
Com o passar dos anos, deixou de reconhecer a mulher que via ao espelho.
Já não ria da mesma forma. Já não falava alto. Já não tomava decisões sem medo.
Numa madrugada, ao olhar para as flores murchas na mesa da cozinha, percebeu finalmente: o amor nunca deveria precisar de pedir desculpa pela violência.
