Vozes sem Medo

A violência doméstica afeta milhares de pessoas todos os dias e pode assumir diferentes formas, como violência física, psicológica, emocional, sexual ou económica. Este site tem informação apoio e relatos sobre este tema, com o objetivo de prevenir e combater esta realidade.

Controlo não é amor

Marta aprendeu a ter medo do som das chaves.

Todos os dias, quando chegava ao prédio, o coração começava a bater mais depressa ainda antes de entrar. Subia as escadas devagar, tentando adivinhar o ambiente da casa pelo silêncio atrás da porta. Havia dias em que tudo parecia calmo. Outros em que bastava um copo mal lavado ou um jantar atrasado para transformar a noite num pesadelo.

No início, ninguém reparou. Nem ela. André dizia que só estava stressado do trabalho.  Pedia desculpa depois de levantar a voz. Trazia flores.

Abraçava-a enquanto prometia:

 “Eu nunca te faria mal.”

Mas o amor começou a vir acompanhado de controlo.

Primeiro foram as roupas:

 “Não precisas de sair vestida assim.”

Depois os amigos:

 “A tua família mete-se demasiado na nossa vida.”

Mais tarde veio o dinheiro:

 “Eu trato das contas. Tu não sabes gerir nada.”

Marta deixou de sair. Deixou de responder às mensagens das amigas. Aprendeu a pedir desculpa por coisas que nem sabia ter feito. O filho, Tomás, começou a perceber antes dela. Quando ouvia a porta bater, corria para o quarto e aumentava o volume da televisão.

Às vezes perguntava baixinho:

 “Mãe… hoje ele está zangado?”

Numa noite de inverno, um prato partiu-se na cozinha. Marta sentiu o braço ser agarrado com força. O medo nos olhos do filho foi pior do que a dor.

Naquela madrugada, enquanto Tomás dormia ao seu lado, percebeu uma verdade difícil: já não estava apenas a tentar salvar o casamento. Estava a tentar sobreviver dentro dele.