
Marta aprendeu a ter medo do som das chaves.
Todos os dias, quando chegava ao prédio, o coração começava a bater mais depressa ainda antes de entrar. Subia as escadas devagar, tentando adivinhar o ambiente da casa pelo silêncio atrás da porta. Havia dias em que tudo parecia calmo. Outros em que bastava um copo mal lavado ou um jantar atrasado para transformar a noite num pesadelo.
No início, ninguém reparou. Nem ela. André dizia que só estava stressado do trabalho. Pedia desculpa depois de levantar a voz. Trazia flores.
Abraçava-a enquanto prometia:
“Eu nunca te faria mal.”
Mas o amor começou a vir acompanhado de controlo.
Primeiro foram as roupas:
“Não precisas de sair vestida assim.”
Depois os amigos:
“A tua família mete-se demasiado na nossa vida.”
Mais tarde veio o dinheiro:
“Eu trato das contas. Tu não sabes gerir nada.”
Marta deixou de sair. Deixou de responder às mensagens das amigas. Aprendeu a pedir desculpa por coisas que nem sabia ter feito. O filho, Tomás, começou a perceber antes dela. Quando ouvia a porta bater, corria para o quarto e aumentava o volume da televisão.
Às vezes perguntava baixinho:
“Mãe… hoje ele está zangado?”
Numa noite de inverno, um prato partiu-se na cozinha. Marta sentiu o braço ser agarrado com força. O medo nos olhos do filho foi pior do que a dor.
Naquela madrugada, enquanto Tomás dormia ao seu lado, percebeu uma verdade difícil: já não estava apenas a tentar salvar o casamento. Estava a tentar sobreviver dentro dele.
