
Nas fotografias, Rita sorria sempre.
Havia imagens de viagens, jantares românticos, aniversários cheios de comentários invejosos: “Casal perfeito.” “Meta de relação.” Mas ninguém via o que acontecia depois da fotografia ser tirada. Tiago queria saber tudo.
Quem lhe mandava mensagens. Porque demorava a responder. Porque tinha colocado gosto numa publicação de um colega. Ao início, Rita confundiu controlo com preocupação. “É porque gosta de mim”, dizia às amigas.
Mas as mensagens começaram a multiplicar-se: “Onde estás?” “Envia fotografia.” “Quem está contigo?” Se demorasse cinco minutos a responder, ele ligava repetidamente. Se saísse com amigas, passava a noite inteira a discutir quando chegava a casa. Rita começou a evitar conflitos.
Desinstalou aplicações. Deixou de falar com pessoas próximas. Inventava desculpas para não sair.
A certa altura, percebeu que já escolhia roupas, palavras e horários pensando na reação dele. Mesmo longe, Tiago ocupava todos os espaços da sua vida.
Numa tarde de domingo, enquanto almoçava com a mãe, o telemóvel vibrou dezassete vezes seguidas. A mãe perguntou: “Está tudo bem?” Rita sorriu automaticamente e respondeu: “Sim.”
Mas pela primeira vez sentiu vontade de chorar ao ouvir essa pergunta.
Porque já não sabia o que era estar realmente bem.
