Lucas tinha nove anos e sabia reconhecer o perigo pelos sons da casa. O barulho das chaves na entrada. Os passos pesados no corredor. O silêncio estranho antes dos gritos.
Todas as noites fingia dormir mais cedo. Abraçava o urso de peluche enquanto ouvia a voz do pai aumentar na cozinha.
A mãe tentava falar baixo. Tentava evitar conflitos. Mas, naquela casa, até o silêncio parecia irritar. Quando começavam os gritos, Lucas tapava os ouvidos da irmã mais nova. Às vezes ouvia pratos a cair. Outras vezes apenas choros abafados. Na manhã seguinte, tudo fingia voltar ao normal. O pai tomava café em silêncio. A mãe escondia marcas com maquilhagem. E Lucas ia para a escola com sono e dores de barriga.
A professora perguntou-lhe um dia: “Porque estás sempre tão cansado?” Ele encolheu os ombros. Como explicar que o medo também tira o sono?
Lucas começou a ter dificuldade em concentrar-se. Assustava-se com barulhos altos. Já não convidava amigos para casa.
No fundo, sentia vergonha de uma violência que nunca tinha provocado.
Numa noite particularmente difícil, encontrou a mãe sentada no chão da cozinha a chorar em silêncio.
Sentou-se ao lado dela e perguntou: “Mãe… quando é que a nossa casa vai voltar a ser normal?”
Ela não soube responder.
Porque a violência doméstica nunca atinge apenas uma vítima. Ecoa em toda a família, especialmente em quem cresce no meio dela.

