Abílio Amiguinho: “Apesar da aposentação, continuo profundamente ligado à ESECS.”

Abílio Amiguinho, professor aposentado do ensino superior do Instituto Politécnico de Portalegre, de 70 anos, dedicou grande parte da sua vida à Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS), onde trabalhou entre 1986 e 2022. Ao longo de 36 anos, acompanhou o crescimento da instituição desde os seus primeiros passos, desempenhando funções de docente, cargos diretivos e dinamizador de vários projetos académicos e cívicos.

Quando chegou a Portalegre, em outubro de 1986, o ensino superior na cidade ainda dava os primeiros passos. “Na altura existia apenas esta escola. O Instituto Politécnico surgiu alguns anos mais tarde”, recorda. Antes disso, já tinha sido professor no ensino secundário e preparatório, lecionando disciplinas como Matemática, Ciências da Natureza, Economia e Sociologia.

A sua ligação ao ensino começou em Arraiolos, em 1979, seguindo depois para a Escola Secundária de São Lourenço, em Portalegre, antes de ingressar no ensino preparatório. “Foi uma experiência riquíssima”, afirma sobre os anos em que trabalhou com alunos mais novos e presidiu o Conselho Diretivo de uma escola preparatória. Mais tarde, já na ESECS, dedicou-se à formação inicial e contínua de professores, numa altura em que o país procurava profissionalizar muitos licenciados que davam aulas sem formação pedagógica.

Até 1993, a ESECS dedicava-se exclusivamente à formação de professores. Com as mudanças nas políticas educativas, a escola viu-se obrigada a criar novas áreas de formação. Foi nesse contexto que surgiu a licenciatura em Jornalismo e Comunicação, curso que ajudou a fundar juntamente com outros docentes ligados às rádios locais. “Eu fazia notícias, relatos de futebol e era diretor de programas de uma rádio local. Achámos que fazia sentido avançar para um curso de jornalismo”.

O sucesso da licenciatura superou as expectativas iniciais. “Nunca imaginámos que pudesse ter o impacto que teve”, admite. Ao mesmo tempo, participou também na criação do curso de Serviço Social, enfrentando resistência de algumas instituições privadas que dominavam essa área de formação. Ainda assim, acreditava que o ensino público devia assumir esse papel. “Os principais empregadores dos assistentes sociais são instituições públicas. Não fazia sentido não existirem cursos públicos”.

Ao longo da carreira, assumiu vários cargos de responsabilidade na instituição. Em 1996 tornou-se o primeiro presidente do Conselho Diretivo eleito da escola, participando também na elaboração dos estatutos da ESECS e do Instituto Politécnico de Portalegre. Mais tarde, presidiu durante 22 anos ao Conselho Científico da escola, num percurso marcado pela consolidação de cursos, contratação de docentes e crescimento institucional.

Defensor de uma gestão participativa, procurou sempre integrar estudantes e funcionários nos órgãos de decisão. “Achávamos importante que todos tivessem voz. Era uma forma de manter vivos os valores democráticos do pós-25 de Abril”.

A relação próxima com os estudantes tornou-se uma das imagens de marca do seu percurso académico. Preferia metodologias participativas às tradicionais aulas expositivas, incentivando os alunos à pesquisa, ao debate e à apresentação de trabalhos. “Gostava que os estudantes fossem ativos no processo de aprendizagem. Primeiro pesquisavam, depois discutíamos e só no fim sistematizávamos o conhecimento”.

A dedicação à instituição foi reconhecida de forma simbólica quando o auditório da ESECS recebeu o seu nome. “Foi um reconhecimento que me surpreendeu muito. Nunca pensei viver uma homenagem dessas em vida”.

Simultaneamente ao percurso académico, desenvolveu também atividade como escritor e cronista, dedicando-se sobretudo a temas ligados à memória, ao Alentejo e às transformações sociais vividas após a Revolução de Abril.

Os livros que publicou representam, segundo o próprio, uma forma de preservar experiências e testemunhos de uma época intensa da história portuguesa. “Quis escrever sobre as pessoas, as paisagens, os saberes e aquilo que vivi durante esse período”.

Depois da aposentação, manteve-se ligado à intervenção cívica e comunitária. Atualmente integra a Cooperativa Operária de Portalegre, uma das cooperativas mais antigas do país, fundada há mais de um século por operários da Robinson. A instituição, originalmente uma cooperativa de consumo, reinventou-se nos últimos anos como cooperativa de solidariedade social.

A ligação surgiu através da experiência acumulada na elaboração de projetos académicos e institucionais. “Achavam que eu podia ajudar a cooperativa através da experiência que tinha na escola”. Hoje, participa em iniciativas ligadas ao envelhecimento comunitário, à educação ambiental e à valorização dos saberes tradicionais.

Natural de Santa Eulália, vive atualmente em Marvão, onde também integra a Assembleia Municipal. Apesar dos vários convites que recebeu ao longo da vida para ocupar cargos políticos, nunca quis abandonar o ensino. “Tinha um carinho demasiado grande pela profissão”.

A família ocupa igualmente um lugar central no seu percurso, embora admita que a intensa dedicação profissional tenha exigido alguns sacrifícios pessoais. Pai de dois filhos, perdeu um deles aos 28 anos, uma experiência que descreve como “a maior dor que pode acontecer”. A partir desse momento, alterou a forma como encarava a vida, o trabalho e as relações pessoais. “Percebi que, às vezes, a vida institucional nos rouba tempo precioso com aqueles de quem gostamos”. Ainda assim, encontrou na atividade constante uma forma de continuar. “Um amigo disse-me: ‘Nunca pares’. E tinha razão. Parar seria ficar preso à dor”.

“Apesar da aposentação, continuo profundamente ligado à ESECS”. Entre livros que ainda manda entregar para a escola, conversas com funcionários de longa data e encontros ocasionais com antigos alunos, mantém viva a relação com a instituição que ajudou a construir. “Às vezes quero desligar-me mais da escola, mas não consigo”.

Com quase quatro décadas de dedicação ao ensino superior, à intervenção cívica e à comunidade, Abílio Amiguinho permanece como uma figura incontornável da história da ESECS e do ensino em Portalegre, deixando um legado marcado pela proximidade, pela participação e pela defesa do conhecimento como instrumento de transformação social.

Autores: André Lucrécio e Joana Cardoso