Três profissionais ligados às artes em Portalegre alertam para a perda de valorização do trabalho manual, partilham preocupações sobre o afastamento das novas gerações das práticas artísticas e defendem a importância de preservar a memória, a identidade cultural e o contacto humano com os materiais.
O trabalho manual, a criatividade e a preservação do património continuam a ocupar um lugar importante na vida de vários artistas e profissionais ligados às artes em Portalegre.
João Aires Garcia dedica atualmente parte do seu dia ao trabalho em pedra, apesar de já se encontrar reformado. Entre memórias de uma vida ligada à cantaria e a criação artística contemporânea, o artesão descreve esta atividade como um espaço de continuidade e, sobretudo, de equilíbrio pessoal.
“Estou aposentado e agora dedico-me inteiramente ao artesanato em pedra. Mas é pouco tempo durante o dia, uma hora ou duas por dia. Isto para mim é uma terapia”, afirma, sublinhando que o contacto com o granito se tornou uma forma de permanência com um ofício que começou ainda na infância.
Natural de Gáfete e residente em Portalegre há quase 60 anos, João Aires Garcia iniciou-se na cantaria aos 11 anos, ao lado do pai, aprendendo a técnica de trabalhar a pedra.
Mais tarde, afastou-se desta atividade durante décadas, tendo trabalhado noutras áreas profissionais, nomeadamente na indústria, em Lisboa. O regresso à escultura aconteceu apenas após a reforma, em 2004, quando recuperou ferramentas antigas e voltou a experimentar o trabalho em pedra.
Ao longo do seu percurso artístico, o escultor foi desenvolvendo peças de natureza diversa, entre reproduções e criações próprias. Muitas dessas obras assumem uma dimensão simbólica e social, refletindo preocupações com as desigualdades contemporâneas. Entre elas destaca uma peça intitulada “Mãos cheias de nada”, atualmente exposta em São José.
O trabalho em granito exige, segundo o próprio, um conhecimento técnico profundo, tanto na escolha da pedra como na leitura da sua estrutura. “O quartzo é um dos minerais mais duros que existem. Há partes da pedra que cortam melhor e outras não. Tem de se saber isso”.
A relação com a profissão começou de forma difícil. O escultor recorda que, na infância, não demonstrava interesse pelo ofício que aprendia com o pai. “Eu ia de propósito com a ferramenta, partia um canto lá de uma pedra para ver se ele me dava um pontapé e dizia ‘vai-te embora, desaparece’, mas não, foi o contrário. Eu ia levar-lhe o almoço e ficava lá na parte de tarde a bater com ele.”
Também Luís Félix defende a importância do contacto direto com os materiais e lamenta a perda progressiva da ligação ao trabalho manual nas gerações mais novas. O artista, professor e criador defende uma prática artística totalmente livre, em que o processo criativo não deve ser condicionado por encomendas ou ideias pré-definidas, mas sim pela intuição e pela experiência do momento.
“Gosto de fazer o que eu gosto, na altura. Tanto faz trabalhar no metal, como na madeira, como na pedra. É aquilo que me sai da alma”. Felix explicou que a liberdade é, para si, o elemento essencial da criação artística. “Quando prende, deixa de ser livre.”
Professor de artes há mais de três décadas, Luís Félix acompanha de perto a evolução das novas gerações e reconhece mudanças profundas na forma como os jovens lidam com a criatividade. Atualmente a lecionar em Marvão, numa região que descreve como marcada pela humanidade e proximidade, o docente desenvolve também projetos de escultura com os alunos.
“É impressionante como eles não conseguem dobrar um arame. Não conseguem usar um alicate”. Acrescentou que essa dificuldade revela uma perda de contacto com o fazer manual. Para o professor, trata-se de um sinal mais amplo de afastamento da prática criativa. “Eles dizem logo: ‘não consigo’. E isso é muito triste.” A preocupação com a continuidade dos saberes tradicionais e da criatividade é também partilhada por Laura Romão. A conservadora-restauradora sublinha a importância do trabalho de conservação e restauro do património, defendendo que a sua função é essencial para garantir a preservação da memória coletiva e a continuidade da identidade cultural das cidades.
“Eu acho que é importante que eu faça preservação. Há peças que eu mexo que, se não mexesse, se perdiam completamente. Eu sei que daqui a 300 anos as peças ainda cá estão”, afirma, destacando o impacto a longo prazo da sua intervenção no património. Responsável por apoiar os três museus da cidade e acompanhar diversas intervenções no espaço público, a especialista explica que o seu trabalho é variado e envolve diferentes tipologias de peças, desde escultura a cerâmica e património religioso. “O meu dia-a-dia é muito variado. A peça vem ter comigo quando precisa de alguma coisa. Tenho de identificar o problema, estudar a peça e depois intervir”, descreve.
Tal como João Aires Garcia, também Laura Romão considera que o conhecimento técnico e a experiência são fundamentais no trabalho artístico e patrimonial. Para Laura, o restauro moderno deixou de ser uma intervenção invasiva para se centrar sobretudo na conservação. “Hoje em dia o restauro é muito conservar e não alterar. Quanto mais se conserva, mais se mantém a identidade”. Ao longo da sua carreira, destaca a evolução da própria profissão, que passou de um trabalho pouco estruturado para uma área altamente especializada e reconhecida. “Há uns anos não se dava importância ao conservador e restaurador. Hoje em dia já é uma profissão mais reconhecida”.
Entre as experiências que marcaram o seu percurso, recorda uma intervenção numa fonte pública da cidade. Durante a reabilitação urbana, a peça foi retirada e posteriormente reinstalada após limpeza e restauro. “Um senhor passou por mim e disse: ‘esta fonte é bonita, mas a antiga era mais engraçada’. E era a mesma fonte, só estava limpa”, conta, ilustrando a forma como a perceção pública pode mudar após uma intervenção. O regresso definitivo de João Aires Garcia à escultura foi impulsionado por uma viagem a Itália, em 2003, onde contactou com obras clássicas da história da arte. “Vim maravilhado com aqueles monumentos com dois mil anos”, recorda. Pouco depois, começou a produzir as suas primeiras peças autorais, incluindo uma pequena Pietà, que viria a marcar o início da sua fase artística mais recente.
Mais tarde, integrou exposições coletivas e associações de artesãos, participando em mostras em diferentes regiões do país. Esse percurso levou-o também a desenvolver projetos temáticos, tanto religiosos como culturais, consolidando a sua presença no circuito artístico local. Apesar da evolução do seu trabalho e da participação em várias exposições, João Aires considera que o artesanato em granito não recebe a valorização que deveria, sobretudo na sua região. “É pouco valorizado, principalmente o granito. Aqui quem admira mais são os turistas, são os estrangeiros. Os residentes olham e não sabem”.
A desvalorização da arte e do artesanato no Alentejo resulta de um conjunto de fatores económicos, sociais e culturais que têm vindo a fragilizar um setor historicamente associado à identidade da região. Apesar do reconhecimento patrimonial de várias expressões artísticas alentejanas, muitos artesãos continuam a enfrentar dificuldades para transformar o seu trabalho numa atividade economicamente sustentável.
Segundo uma reportagem publicada em 2022 pelo Diário do Alentejo, muitos profissionais do setor admitem que é praticamente impossível viver exclusivamente do artesanato. O jornal destaca que vários artesãos necessitam de manter outras profissões para garantir estabilidade financeira, revelando uma realidade marcada pela precariedade e pela falta de valorização económica do trabalho manual. A mesma reportagem sublinha ainda que o artesanato tradicional sofre com problemas de divulgação e modernização, o que dificulta a sua adaptação às exigências do mercado contemporâneo e à captação de novos públicos.
O artigo refere também que, apesar do crescimento do turismo na região, esse aumento nem sempre se traduz em melhores condições para quem produz arte e artesanato localmente. Esta realidade aproxima-se da perspetiva partilhada pelos entrevistados, que identificam uma crescente dificuldade em manter vivas práticas artísticas tradicionais e em aproximar as novas gerações destas formas de criação.
A perceção de uma desvalorização crescente das artes e da criatividade é igualmente apontada por Luís Félix. Ao longo da entrevista, o professor refere que a transformação das brincadeiras e da infância tem impacto direto na imaginação e na sensibilidade das novas gerações. “Eu pegava num pau e aquilo era uma espada de piratas. Hoje em dia é o telemóvel, é a inteligência artificial”, observa, defendendo que essa mudança tem impacto direto na sensibilidade e na imaginação.
“Está cada vez mais a matar a criatividade e principalmente a sensibilidade”. Acrescenta ainda que a sociedade atual valoriza pouco a gentileza e o cuidado na relação com o outro. Para o professor, a arte desempenha precisamente o papel contrário: estimular empatia, liberdade e expressão pessoal.
Na sua visão, a educação desempenha um papel central nesse processo, embora considere que as condições atuais nem sempre favorecem o desenvolvimento artístico. “Os pais estão muito preocupados em ganhar dinheiro e depois falta tempo para o estar, para o partilhar”. Também o contacto com a natureza surge como elemento essencial no desenvolvimento das crianças. O professor lembra experiências em contexto rural, onde o desenho e a observação faziam parte do quotidiano. “Apanhar flores, ver insetos, desenhar o que vemos. Hoje isso perdeu-se muito.”
Apesar das críticas, Luís Félix acredita que continuará a existir interesse pela arte e pela criação manual. “Vai haver sempre alguém com vontade de aprender e de mexer”, afirma, defendendo que a arte se mantém como espaço de liberdade e descoberta.
Com cerca de 300 alunos, o professor identifica talento e potencial nas novas gerações, sublinhando que o medo é um dos principais obstáculos à criação. “O medo castra tudo o que seja arte”, refere, defendendo uma abordagem pedagógica assente na experimentação e na ausência de julgamento. Para Luís, a arte não deve ser entendida apenas como técnica ou execução, mas como um processo de interpretação e liberdade. “A arte será sempre um caminho para a felicidade. O sonho só alguns têm coragem de o ter.”
O docente reconhece, contudo, uma diminuição do tempo e espaço dedicados às disciplinas artísticas nas escolas. Recorda que, no passado, os alunos tinham uma carga horária significativamente superior na área das artes, ao contrário do que acontece atualmente. “As escolas querem pôr os alunos a ler e a fazer contas, mas muitas vezes não a interpretar nem a compreender”, critica. Para o professor, a arte é a disciplina onde o aluno aprende verdadeiramente a ser livre, a imaginar e a criar. Um dos exercícios que utiliza frequentemente em contexto letivo é a observação direta de objetos simples. “Eles olham, mas não observam. E depois não conseguem desenhar”, explica, defendendo que a capacidade de observar é fundamental para qualquer processo criativo.
A preocupação com a preservação da memória e da identidade cultural aproxima também o discurso de Laura Romão das reflexões dos dois artistas. Para a conservadora, o maior risco associado à desvalorização do restauro é precisamente a perda de memória coletiva. “O que se perde é a nossa identidade, a nossa memória. Se apagamos o nosso passado, perdemos informação”, alerta, defendendo que a preservação é essencial para a construção do futuro.
Apesar das preocupações, considera que atualmente existe uma maior consciência sobre a importância do património e da sua conservação. “Hoje já há muito mais atenção e cuidado nesse sentido”. Nesse sentido, destaca também o papel da educação na sensibilização das novas gerações. Através de visitas regulares às escolas do ensino básico, procura aproximar as crianças do património local. “Levo peças dos museus para eles terem contacto direto. Eles têm de sentir que isto também é deles”.
Para a especialista, esta ligação é fundamental para garantir a preservação futura. “Se conhecerem o que temos e valorizarem, vão preservar e não estragar”, sublinha. Iniciativas de abertura dos processos ao público ajudam a aproximar a comunidade deste trabalho. Durante intervenções na Sé da cidade, por exemplo, foram organizadas visitas ao local da obra, permitindo que a população acompanhasse o processo de restauro.
Laura Romão considera que o envolvimento dos jovens continua a ser um desafio. Apesar dos esforços de divulgação através de associações culturais e iniciativas como o Ateliê das Artes de Portalegre, nota uma participação reduzida das gerações mais novas em atividades ligadas às artes e ao património.
“Raramente temos jovens a assistir às nossas exposições ou a participar nos eventos”, refere, acrescentando que a associação tem procurado criar projetos específicos para os atrair.
No entanto, acredita que o interesse pelas artes tradicionais não desapareceu, mas sim que está a assumir novas formas. “Há uma vontade de ir buscar essas artes mais tradicionais, mas com uma nova cara, mais modernizada”, observa.
João Aires demonstra também uma preocupação relativamente ao futuro das técnicas tradicionais. O escultor considera que as formas artesanais de trabalhar a pedra estão em risco perante a evolução tecnológica e a mecanização. “Não vejo futuro neste sistema, como eu trabalho. Agora há outras maneiras de fazer as obras com mais facilidade e até mais perfeitas”, admite.
Ainda assim, recusa a ideia de ensinar de forma formal o que faz, explicando que grande parte do seu conhecimento resulta da observação e da prática prolongada. “Senta-te aqui e vê. A ver também se aprende”, recorda, citando uma expressão do pai. Mais do que ensinar técnica, o escultor defende a importância de estimular a criatividade e o contacto manual com os materiais, especialmente entre os mais jovens. “Criem, façam qualquer coisa com as mãos. Isso alimenta a nossa autoestima”, sublinha, acrescentando que já realizou demonstrações em escolas para aproximar os estudantes desta arte.
O significado do trabalho de Laura Romão também está profundamente ligado à continuidade entre passado e futuro. “Eu gosto imenso do que faço. Estou a preservar e a fazer com que as coisas cheguem ao futuro”. Na sua perspetiva, cada intervenção realizada contribui diretamente para a sobrevivência do património. “Há peças que, se não tivesse mexido nelas, já não existiam”, sublinha.
Apesar das diferenças entre escultura, ensino artístico e conservação patrimonial, os três entrevistados convergem numa ideia comum: a arte continua a ser um espaço de memória, liberdade, identidade e expressão humana. Defendem a importância de preservar não apenas os objetos, mas também a criatividade, a sensibilidade e o contacto humano com os materiais e com a cultura.
Autora: Fátima Djaló
Conteúdo Multimédia: André Lucrécio, Joana Cardoso, José Neves



















