O novo pulso de Portalegre: desenvolvimento do empreendedorismo local

Quatro novos negócios têm marcado presença em Portalegre nos últimos anos, trazendo diversidade à cidade do Alentejo. Abriram portas entre 2020 e 2025, cada um com os seus desafios e adaptação ao mercado local.

Portalegre tem sido associada a uma imagem de cidade que está a perder movimento devido a vários negócios que têm fechado as portas, mas nos últimos tempos tem havido sinais de mudança. Estes empreendedores não chegaram por acaso: foram motivados por experiências pessoais ou pela vontade de oferecer algo de diferente à comunidade.

A história da Sunny Berry em Portalegre, começa antes de Kevim Modesto entrar no negócio. Em entrevista, Kevim explicou que a marca já existia muito antes dele e que inicialmente tinha outro nome.

“Eu conheci meu sócio em 2023 um pouco antes do ano novo e foi quando a gente comentou a respeito. Ele já trazia a Sunny Berry para cá, só que ele trabalhava somente com revenda e tinha interesse em implementar uma loja da marca, criar algo de forma a que futuramente, quem sabe, viesse a ter uma franquia da marca”, contou.

Kevim, que é brasileiro e mora em Portugal há três anos, explicou que a possibilidade se tornou real quando Alex lhe perguntou o que achava de abrir uma loja no Alentejo.

Descreveu o raciocínio que o levou a apostar numa cidade mais pequena: “Por que não procurar fazer algo diferente? Ao invés de implementar uma loja lá em Lisboa onde tem muitos concorrentes, por que não começar a fazer uma caminhada de trás para frente indo ao Alentejo?”. Disse que em Portalegre existiam revendedores mas não um local específico dedicado à venda de açaí.

Quando falou dos desafios, não minimizou nada: “Todos. Todos possíveis.”

Para ele, a dificuldade começou no momento de encontrar um espaço adequado para a abertura de um negócio na região: “Desde o momento de achar um local próprio para poder agregar esse tipo de ambiente, agradar os públicos em diversos aspectos como, por exemplo, o produto, o atendimento e a qualidade. Aqui é muito burocrático para você abrir um estabelecimento. Você tem que ter muito investimento e retorno a longo prazo.”

A loja abriu em 2024 e ao longo do processo disse que enfrentou barreiras sucessivas tanto internas como externas e que o percurso o obrigou a executar passo a passo.

Questionado sobre a ideia de que Portalegre é uma cidade envelhecida e de pouca procura, respondeu que essa percepção não corresponde à sua experiência. Afirmou que apesar de existir população idosa, há também muitos jovens e que desde o início pensou em um produto que pudesse atender todos os públicos: “Portalegre é uma cidade que tem idosos sim, mas tem muitas pessoas novas. Eu vim trabalhar com um produto que viesse agregar e atender todos os públicos, seja idoso, criança ou adolescente. O produto em si não é algo para atingir um certo público mas sim para abranger a todos aqueles que vêm, que gostam ou que tiveram uma experiência ruim para quebrar essa barreira.” Na prática descreveu um público diversificado e difícil de categorizar já que ele “atende de tudo um pouco”.

Quanto ao crescimento da marca, afirmou que o principal objetivo é consolidar a loja em Portalegre, torná-la reconhecida e agradar os clientes. Disse que se tudo correr bem, quer “implementar mais lojas na região” e admite que a expansão pode acontecer num futuro não tão distante. “A ideia daqui foi bacana e tem dado certo. Graças a Deus, tenho tido um público legal, pessoas novas e que retornam.”

Para Kevim, não se trata apenas de vender um produto: “É um ambiente que a pessoa senta, come, conversa e fica.” Descreve que ali vão casais, famílias, estudantes que aproveitam para estudar e até pessoas que entram para relaxar depois de um dia difícil.

Sobre o feedback, disse que recebe muitos comentários positivos tanto sobre o produto quanto sobre o atendimento e o espaço. O empreendedor afirmou que a recomendação boca a boca é essencial: “É a melhor propaganda que se tem.” Apesar disso, reconhece que não é possível agradar a todos, mas sente que tem conseguido atender as expectativas da maioria e, por vezes, até mesmo superado.

A Miss Mary Makeup nasceu do sonho de Mariane Teixeira em unir duas paixões: vendas e beleza. Mariane recordou que sempre gostou da área. “Faço maquilhagem desde os meus 12 anos e o mundo do makeup sempre fez os meus olhos brilharem.”, afirmou. A necessidade também teve um papel importante na decisão de iniciar o negócio: “Eu trabalhava na fábrica da borracha na altura e estava sempre a ter que deixar o turno a meio para ir à escola socorrer o meu filho que foi diagnosticado com autismo. Foi um bocadinho difícil, então comecei a trabalhar em casa.”

Começou apenas com vendas online em que fazia diretos nas redes sociais e mostrava os produtos aos clientes. “Inicialmente pensei, bem, tenho que ganhar dinheiro de alguma forma, vou começar a trabalhar em casa, mas isto foi um “boom” muito grande porque eu tinha muito sucesso nos diretos, graças a Deus.” O crescimento rápido do negócio fez com que Mariane percebesse a necessidade de um espaço físico em 2022. “Depois surgiu a ideia de abrir uma pequenina loja que não era esta, era a antiga loja Boticário em frente à Pastelaria Conforto. Era mesmo muito pequenina e pensei, já não estou a caber dentro de um quarto na minha casa a fazer diretos Vou ter que abrir uma loja para comportar todo o material que eu quero mostrar.”

No entanto, o espaço inicial ficou pequeno seis meses depois, o que levou à expansão para a loja atual com o objetivo de continuar a crescer: “O objetivo é continuar a expandir a partir daqui.” Mariane acredita que a sua loja trouxe “sangue novo” a Portalegre, o que oferece algo diferente ao público jovem da cidade: “Portalegre precisava de algo diferente. Já temos algumas perfumarias, mas precisava de algo novo, de malta mais jovem. Por exemplo, eu tenho imensas estudantes que vêm cá, encontram cremes de cabelo e o atendimento também é diferente. Eu atendo muito de igual para igual. Não há aquela postura de ‘eu sou empresária e vocês são meras clientes.”

Segundo a empreendedora, o espaço foi pensado para proporcionar experiências e não apenas vendas: “Eu tenho o banquinho rosa que toda a gente se senta para conversar. Às vezes vêm muito tristes porque aconteceu alguma coisa na escola e desabafam comigo. Não é só vender um produto, é vender experiências.”

Embora a loja seja frequentada por clientes de todas as idades, Mariane reconheceu que o público predominante é jovem.

A mesma afirmou também que a sua capacidade de chegar a diferentes públicos deve-se também à flexibilidade e atenção às tendências: “Eu trago tudo o que é viral na internet. Eu oiço muito aquilo que o cliente me pede. Vocês pedem-me coisas diferentes e eu vou atrás disso e vou buscar.”

Mariane apontou alguns desafios no desenvolvimento do negócio, incluindo a falta de espaço e a estrutura da cidade: “Portalegre é uma cidade um bocadinho envelhecida, mas agora o pessoal está a começar a abrir negócios mais jovens. Podes ver que já abriu 3 ou 4 lojas diferentes e a coisa vai mexendo.”

Um desafio constante é gerir o stock de mais de mil artigos diferentes, muitos deles altamente virais e difíceis de manter em quantidade suficiente: “O maior desafio é gerir stock porque tudo que é muito viral esgota rápido no fornecedor.” A localização também apresenta limitações, sobretudo pelo estacionamento: “A dificuldade que eu noto é que aqui é uma rua pedonal, então as pessoas acabam por não ter tanto acesso à rua por conta da falta de estacionamento.”

Quanto ao futuro, Mariane revelou planos de expansão e novas parcerias: “Eu já estou a ver um espaço novo. Já preciso de um espaço maior porque está mesmo muito pequenino. Quero trazer novas marcas. Vai ser algo bem diferente.”

Jerusa Brunhara, brasileira que vive em Portugal há nove anos, é especializada em estética e cabeleireira. Começou a trabalhar na cidade há sete anos e abriu o próprio espaço em 2024 após o incentivo da mãe: “Eu não tinha o sonho de abrir aqui o espaço, mas no ano passado a minha mãe esteve me visitando e viu a quantidade de clientes que eu tinha e acabou me dando um ânimo para poder abrir o meu espaço.”

Inicialmente, Jerusa tinha receio devido ao tamanho de Portalegre: “Eu tinha receio devido a Portalegre ser uma cidadezinha que não está tão desenvolvida em termos de negócios. Tinha receio de não dar certo, mas graças a Deus deu tudo certinho.” Ela já possuía uma base de clientes de diversas idades, adquirida ao longo de anos em outros salões e atualmente atende desde crianças até pessoas mais velhas: “Eu tenho crianças que desde que nasceram cortam o cabelo comigo e agora já estão maiorzinhas até pessoas de meia idade. Eu tenho clientela de todas as idades e vários tipos de cabelo.”

Embora o seu foco principal seja alisamento e loiros, Jerusa procura constantemente inovar e introduzir técnicas que ainda não existem em Portalegre: “Eu sempre procurei inovar, sempre busquei conhecimento e técnicas e  agora eu vou ter no salão uma parte que Portalegre não tem que se chama solário.  É um bronzeamento artificial.”

Jerusa relatou que os desafios foram significativos sobretudo ao início, onde destacou as diferenças entre abrir um negócio no Brasil e em Portugal: “Aqui foi bem burocrático e tem muito gasto. Segurança social, contabilidade, produtos, investimento em matéria-prima. É puxado manter um comércio aberto. Não é fácil.” Além disso, apontou a falta de apoio governamental: “ O Governo brasileiro ajuda muito o empreendedor, mas aqui em Portugal eu não tive ajuda nenhuma do Governo. Eu não tive nada de apoio financeiro nem que fosse algumas taxas reduzidas ou alguma coisa do género para incentivar a abertura de comércio.”

Apesar das dificuldades sente que conquistou a clientela local: “Uma das coisas que eu senti ao início foi o medo de não ser aceite por ser uma loja muito jovem, mas depressa passou porque assim que abri a porta percebi logo que funcionava.”

Em relação ao futuro, a empreendedora tem planos de diversificar os serviços oferecidos: “Antes era só unha e cabelo. Agora vai ter depilação a laser, vai ter limpeza de pele, tratamentos corporais, tratamentos de redução de medida, vai ter o solário. Então vai mudar completamente o espaço.”

A mesma afirmou que o objetivo é tornar o espaço mais completo e inovador para consolidar os clientes existentes e atrair novos clientes.

Sobre a visão para o futuro, concluiu: “Eu quero abranger novidades. O objetivo é fazer do salão um ponto de referência para cuidados pessoais na cidade, continuando a investir em técnicas, especializações e novidades que atendam às necessidades de todos os públicos.”

Sílvia de Sousa, proprietária do Império da Moda, começou por explicar que é natural de Alter do Chão e que tem uma longa experiência no comércio: “Tenho lojas em Alter do Chão há 22 anos e agora decidi abrir loja aqui no Centro Comercial Fontedeira em Portalegre.” A ideia de expandir para Portalegre surgiu principalmente pelo reconhecimento da clientela local: “Realmente tenho clientes de todo o lado. Já tinha muitos clientes em Portalegre e nunca pensei sinceramente em abrir loja cá, mas depois surgiu esta oportunidade, vimos estas duas lojas e pensámos logo em montar aqui também do nosso ramo, que é roupa, calçado e acessórios.”

Sobre os desafios da abertura, Sílvia sublinhou que a percepção de Portalegre como cidade pequena não a desencorajou: “Achei que Portalegre era um bom desafio, até porque tinha muitos clientes de cá comparado com a minha terra e também achei Portalegre enorme portanto não estou arrependida. Está a correr muito bem, estou a gostar muito, tanto das pessoas como da cidade.”

No que diz respeito à divulgação da loja, Sílvia recorre às redes sociais: “Trabalhamos com o Facebook onde fazemos vídeos e todos os dias tentamos publicar as novidades que chegam às nossas lojas.”

Sílvia também apresentou uma visão do futuro: “Acho que vai correr bem e sei que os clientes vão ser fiéis tal e qual como em Alter do Chão. Acho que aqui para além de manter as minhas clientes que já tinha em Portalegre ainda vou ganhar mais.”

Esclareceu ainda que apesar de se tratar do Império da Moda em Portalegre, em Alter do Chão é mais conhecida como a “Loja da Silvia”. A loja abriu em Portalegre em 2025.

Apesar das diferenças nos produtos e serviços, todos atendem a públicos variados ainda que com segmentos prioritários distintos: o Salão de Beleza Jerusa Brunhara foca-se em serviços de estética especializados, a Miss Mary Makeup direciona-se principalmente ao público jovem com produtos de maquilhagem e cosmética, a Sunny Berry combina alimentação saudável com um espaço de socialização e o Império da Moda baseia-se na fidelização de clientes existentes e na divulgação em redes sociais. Observa-se também que todos têm planos para crescimento futuro, seja através da ampliação de serviços, expansão física ou consolidação da marca. As estratégias adotadas mostram formas distintas de adaptação ao mercado local, seja pela inovação em serviços, introdução de produtos novos, experiência do cliente ou  comunicação digital.

Apesar das dificuldades burocráticas, do receio inicial e da necessidade de se adaptar a diferentes públicos, cada proprietário encontrou maneiras de se consolidar na cidade. A presença destes negócios demonstra que, mesmo em uma cidade do interior em despovoamento, é possível criar novas experiências de consumo e desenvolver atividades comerciais.

Portalegre enfrenta queda populacional persistente e envelhecimento da população

Portalegre tem enfrentado uma queda populacional persistente nas últimas décadas.

Segundo dados do INE e do site Idealista, o concelho tinha 22.340 habitantes dos quais cerca de 14.138 residiam na cidade propriamente dita, em 2021. Entre 2011 e 2021, registou-se uma diminuição de 10,4% da população enquanto o distrito perdeu 11,4% dos habitantes no mesmo período, conforme o jornal O Digital e o relatório da Câmara Municipal de Portalegre feito em 2024.

A tendência mantém-se recente: entre 2021 e 2024, o concelho perdeu mais 496 habitantes, cerca de 2,2% da população, de acordo com a Rádio Elvas. Este decréscimo reflete não só a emigração, mas também o envelhecimento populacional e o baixo número de nascimentos, com o distrito a registar um dos menores números de nascimentos em 2023, segundo o Linhas de Elvas. Portalegre que tem uma área de 447,14 km², continua a ser um núcleo urbano central no interior alentejano apesar das tendências demográficas desafiantes.

Autora: Fátima Djaló