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“Este é um pequeno tesouro escondido”: Carla Silva fala sobre o legado de Emílio Relvas e o Núcleo Rural do Reguengo
Entrevista a Carla Silva, assistente técnica da União das Freguesias de Reguengo e São Julião e guia do Núcleo Rural de Emílio Relvas.
Como surgiu o Núcleo Rural dedicado a Emílio Relvas?
O núcleo nasceu com o objetivo de preservar e divulgar o legado deixado por Emílio Relvas, um habitante da freguesia do Reguengo que, após a reforma, dedicou grande parte do seu tempo à criação de esculturas em madeira. Ao longo de cerca de 25 anos, produziu perto de mil peças, todas feitas manualmente e inspiradas nas suas vivências, na natureza, na religião e no quotidiano rural.
Quem foi Emílio Relvas?
Emílio Relvas era natural do Reguengo e trabalhou toda a vida no campo. Apesar de ter apenas a antiga quarta classe, possuía uma enorme criatividade e uma capacidade invulgar para transformar troncos e raízes em figuras e cenas cheias de significado. Nunca vendeu as suas obras; fazia-as por gosto e muitas vezes oferecia-as a familiares e amigos. Era conhecido na aldeia como “Tio Canas” e era uma figura muito querida pela comunidade.
O que distingue as peças expostas no museu?
A principal característica é que cada peça nasce da forma natural da madeira. Emílio Relvas observava os troncos e raízes e imaginava o que poderia surgir dali. A maioria das obras é única e representa aspetos da vida rural, animais, cenas do quotidiano, tradições locais e temas religiosos. A coleção inclui ainda um conjunto muito significativo de representações de Cristo, consideradas algumas das peças mais impressionantes do acervo.
Qual é a missão do Núcleo Rural?
A nossa missão é dar a conhecer o legado que Emílio Relvas deixou e, ao mesmo tempo, preservar a memória das vivências de antigamente. Este espaço permite compreender não apenas o trabalho artístico do autor, mas também a realidade social, cultural e religiosa de uma época. É um património que ajuda a contar a história das pessoas e das suas raízes.
Porque considera que este património continua pouco conhecido fora da região?
Penso que isso acontece, em parte, por desconhecimento e pela localização do espaço. Estamos numa freguesia rural, afastada dos grandes centros urbanos e dos principais circuitos turísticos. Muitas vezes, os visitantes ficam surpreendidos quando descobrem o que existe aqui, porque não esperavam encontrar uma coleção tão rica e tão singular numa pequena aldeia.
Quais são os principais desafios na divulgação do museu?
O maior desafio é precisamente a acessibilidade. Estarmos fora da cidade dificulta a atração de visitantes e de grupos escolares. Além disso, existe uma enorme oferta turística na região e, por vezes, as pessoas não sabem exatamente o que vão encontrar neste espaço. Apesar dos esforços de divulgação através de projetos turísticos locais, redes sociais e do site da freguesia, continua a ser necessário captar mais atenção para este património.
Que papel pode desempenhar o jornalismo cultural na valorização de espaços como este?
Tem um papel muito importante. O jornalismo cultural ajuda a dar visibilidade a projetos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos. Os jornalistas conseguem chegar a novos públicos, contar histórias e despertar a curiosidade das pessoas. Para nós, isso representa uma mais-valia, porque permite divulgar o trabalho desenvolvido e mostrar a riqueza cultural que existe fora dos grandes centros.
O que espera de projetos multimédia dedicados à memória e ao património local?
Acredito que podem funcionar como uma verdadeira alavanca de desenvolvimento. As plataformas digitais e as redes sociais permitem chegar a públicos mais jovens e criar novas formas de contar histórias. Muitas vezes, quem trabalha diariamente num espaço tem uma visão mais tradicional da comunicação, enquanto equipas externas podem trazer abordagens inovadoras e criativas que ajudam a aproximar o património das novas gerações.
Se pudesse destacar uma ideia essencial sobre este museu, qual seria?
Gostaria que fosse transmitida a ideia de surpresa. Este espaço é, de certa forma, um pequeno tesouro escondido. Queremos que seja divulgado e conhecido, mas sempre com respeito pelo seu valor cultural. Não procuramos a massificação; queremos que os visitantes compreendam a importância deste património e que tenham uma experiência genuína de contacto com a história e com a comunidade local.
Que conselho deixaria aos jornalistas e investigadores que trabalham sobre património?
Que visitem os locais e conheçam as pessoas. A investigação online é importante, mas nada substitui a experiência direta. É fundamental percorrer os territórios, conversar com quem os vive diariamente e sentir os espaços. Só assim é possível compreender verdadeiramente o património e transmitir a sua riqueza de forma autêntica.
Que mensagem gostaria de deixar aos futuros visitantes?
Convido todos a visitar este espaço museológico e a descobrir o legado de Emílio Relvas. Aqui não encontram um local impessoal ou massificado. Encontram um espaço de proximidade, onde as pessoas são recebidas, acompanhadas e convidadas a conhecer uma história única. É uma oportunidade para contactar com a memória, a criatividade e a identidade de uma comunidade.
Autor: Vasco Lopes
Palavras-chave: Emílio Relvas; Escultura em Madeira; Identidade Local; Memória Local; Núcleo Rural do Reguengo; Património Cultural.

