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Antes de Portalegre crescer para além das suas muralhas, já existia um lugar onde dezenas de famílias construíam as suas vidas, partilhavam o seu quotidiano e criavam uma comunidade única. Esse lugar chama-se Bairro da Vila Nova.
Considerado o primeiro bairro construído fora das muralhas da cidade, a Vila Nova nasceu para responder às necessidades habitacionais de uma população trabalhadora. Durante muitos anos, permaneceu quase como uma pequena ilha à margem da cidade, rodeada por campos e olivais, desenvolvendo uma identidade própria que ainda hoje permanece viva na memória dos seus habitantes.
Aqui, as ruas eram muito mais do que espaços de passagem. Eram locais de encontro, de convivência e de partilha. As portas permaneciam abertas. Os vizinhos conheciam-se pelo nome. As crianças brincavam juntas até ao anoitecer e cresciam como se pertencessem todas à mesma família.
A vida desenrolava-se na rua. Segundo Lurdes Fonseca “Nos serões de verão, as famílias sentavam-se à porta de casa, conversavam ao som do rádio e acompanhavam o movimento do bairro”. “Os domingos eram passados em convívio, as refeições eram partilhadas e a entreajuda fazia parte da rotina de todos” conta-nos Tânia Silheiro.
Ao longo das décadas, a Vila Nova construiu uma forte identidade coletiva. Uma identidade feita de laços de proximidade, mas também de tradições que marcaram gerações.
O Carnaval era vivido de forma intensa. O tradicional Entrudo mobilizava moradores de todas as idades. “Construía-se um boneco de palha, vestido como uma pessoa real, que percorria as ruas num cortejo simbólico antes de ser queimado numa fogueira” refere Lurdes Fonseca, numa celebração onde o humor, a criatividade e a participação comunitária eram os protagonistas
Mas eram sobretudo os Santos Populares que transformavam o bairro.
As ruas enchiam-se de bandeiras e enfeites coloridos. Organizavam-se marchas populares. Assavam-se sardinhas. Preparavam-se açordas. E realizavam-se os famosos Bailes da Vila Nova, que durante muitos anos atraíram centenas de pessoas de toda a cidade. Para muitos portalegrenses, os bailes da Vila Nova eram uma referência incontornável das festas populares, um momento de encontro onde a música, a dança e o convívio uniam gerações. Refere Vitor Miranda diretor artístico d’O Semeador Grupo de Cantares de Portalegre
Ao mesmo tempo, a vida no bairro era também marcada pela simplicidade e pelas dificuldades da época.
As casas eram pequenas. Muitas famílias numerosas viviam em habitações com apenas uma cozinha, um quarto e um sótão. Houve um tempo em que a água era recolhida num tanque comunitário e em que muitas habitações não possuíam casa de banho menciona Tânia Silheiro ao falar das fracas condições das casas na sua infância. Apesar dessas limitações, quem aqui cresceu recorda esses anos com carinho. Porque, acima de tudo, existia um forte espírito de comunidade que ajudava a ultrapassar as dificuldades do dia a dia.
Com o passar dos anos, porém, a cidade expandiu-se.
Novos bairros surgiram. “Muitas famílias procuraram casas maiores e com melhores condições” Menciona a D. Lurdes. Aos poucos, algumas habitações foram ficando vazias. Os telhados começaram a degradar-se. As portas fecharam-se. E aquele bairro que durante décadas foi sinónimo de vida e movimento começou a enfrentar o risco do abandono.
Mas, mesmo quando muitos partiram, a ligação emocional à Vila Nova nunca desapareceu.
Filhos, netos e bisnetos de antigos moradores continuaram a regressar. Alguns decidiram recuperar as casas das suas famílias. Outros mantiveram viva a memória das histórias, das festas e dos momentos que aqui viveram. Porque a Vila Nova não representa apenas um conjunto de edifícios. Representa uma parte importante da identidade de centenas de famílias portalegrenses.
Hoje, o bairro enfrenta um dos maiores desafios da sua história.
Apesar de ser composto por dezenas de habitações, a Vila Nova continua a ser considerada, do ponto de vista legal e imobiliário, um único lote. Esta situação tem dificultado ao longo dos anos a aquisição individual das casas pelos moradores e tem condicionado muitos processos de recuperação e reabilitação.
Para quem vive aqui, o problema vai muito além de uma questão burocrática.
Muitas das famílias que habitam o bairro gostariam de adquirir as casas onde nasceram, onde cresceram os seus pais e avós, e onde permanecem as suas memórias. No entanto, a configuração legal do bairro e a existência de múltiplos herdeiros e proprietários tornam qualquer solução particularmente complexa.
Ao mesmo tempo, esta indefinição tem contribuído para a degradação de várias habitações e alimentado a preocupação de quem teme que um património com enorme valor histórico, arquitetónico e social possa perder-se com o passar do tempo.
Foi precisamente perante esta realidade que nasceu a Associação de Moradores do Bairro da Vila Nova.
Movidos pela vontade de preservar não apenas as casas, mas também a história, as tradições e o espírito comunitário que sempre caracterizaram este lugar, os moradores organizaram-se para procurar soluções, promover iniciativas culturais e chamar a atenção para a importância deste património.
O seu esforço contribuiu para que a Vila Nova fosse reconhecida como património de interesse municipal, reforçando a consciência de que este bairro representa muito mais do que um conjunto de habitações. Representa um capítulo importante da história de Portalegre.
Hoje, entre casas recuperadas e outras ainda abandonadas, entre memórias do passado e projetos para o futuro, a Vila Nova encontra-se num momento decisivo.
Os moradores sonham com um bairro vivo, habitado, preservado e capaz de manter aquilo que sempre o distinguiu: a sua identidade, a sua história e o seu espírito de comunidade.
Porque preservar a Vila Nova não significa apenas recuperar paredes, telhados ou fachadas menciona Diogo Aragonez presidente da associação de moradores do Vila Nova. Significa preservar um modo de vida, uma memória coletiva e um património humano que marcou gerações.
Esta é a história de um bairro que resiste ao tempo. A história das pessoas que o construíram, que o viveram e que continuam a lutar para garantir que o seu futuro não apaga o seu passado.
Esta é a história do Bairro da Vila Nova.
Autor: Vasco Lopes
Palavras-chave: Bairro Vila Nova; Comunidade; Identidade local; Memória coletiva; Património; Reabilitação urbana

