A arte e a cultura ancestral

Falar sobre o grogue e o binde é mergulhar fundo na identidade, na história e na cultura de Cabo Verde. São dois símbolos de resistência, tradição e saber partilhado que se complementam muito bem .

O Grogue: A Alma Líquida de Cabo Verde
​O grogue não é apenas uma bebida alcoólica; é um património cultural. É uma aguardente de cana-de-açúcar produzida de forma artesanal há séculos, com especial força em ilhas como Santo Antão e São Nicolau.

O Processo de Produção Tradicional
​O fabrico do grogue segue um ritual que envolve a comunidade e técnicas passadas de geração em geração:
​A Colheita e a Moagem: A cana-de-açúcar é cortada à mão e levada para o trapiche (o engenho de moagem). Antigamente, os trapiches eram movidos exclusivamente por tração animal (bois), ao som de cantos tradicionais (os mansas), embora hoje muitos já usem motores.
A Fermentação: O sumo extraído (a garapa) é colocado em grandes dornas para fermentar naturalmente. Este processo leva cerca de 4 a 8 dias, dependendo da temperatura, transformando o açúcar em álcool sem qualquer aditivo químico.
​A Destilação: A garapa fermentada vai para o alambique de cobre. O calor do fogo a lenha faz o líquido evaporar, passando por uma serpentina resfriada por água, onde condensa e corre, gota a gota, o grogue puro.

O Binde: O Molde da Tradição e do Cuscuz
​Se o grogue move as conversas, o binde alimenta o corpo. O binde (ou bindi) é uma peça de olaria de barro tradicional, essencial para fazer o famoso cuscuz cabo-verdiano.

A Produção Artesanal e a Resistência
​A produção do binde está intimamente ligada ao artesanato feito por mulheres, com grande destaque para a zona de Fonte Lima, na Ilha de Santiago.
​Moldagem à Mão: O processo é totalmente manual. As paneleiras recolhem o barro local, limpam as impurezas e moldam a peça sem roda de oleiro, usando apenas as mãos, água e a sua própria intuição.
​O Design Funcional: O binde tem um formato cónico ou de vaso, com uma característica crucial: furos na base. São estes furos que permitem a passagem do vapor quando o binde é colocado em cima de uma panela com água a ferver (a caneca), cozendo a farinha de milho.
​A Queima: Depois de secas à sombra e ao sol, as peças são cozidas em fogueiras a céu aberto (técnica de cozedura redutora ou oxidante tradicional), o que lhes dá a cor avermelhada ou escura e a resistência necessária para irem ao lume .

Saber Ancestral: Tanto o grogue feito no trapiche como o binde moldado pelas paneleiras dependem do “saber-fazer” (know-how) tradicional, que corre o risco de se perder com a modernização.

O Artesanato em Cabo Verde , e uma forma de expressão riquíssima da identidade, história e cultura do arquipélago. Ele carrega influências africanas e europeias que se fundiram ao longo dos séculos, e varia bastante de ilha para ilha, dependendo dos materiais disponíveis em cada uma.

E dentro do artesanato destaca se o Pano de Terra.​É, sem dúvida, um dos maiores símbolos culturais do país, com raízes profundas na ilha de Santiago. Feito tradicionalmente em teares manuais e estreitos, destaca-se pelos seus padrões geométricos complexos em tons de azul (conseguido historicamente através do escoamento do gome, ou planta do índigo) e branco. No passado, tinha um enorme valor comercial e social, sendo usado como moeda de troca. Hoje, é uma peça de prestígio usada em trajes tradicionais, festividades e decoração.

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