{"id":358,"date":"2026-05-04T17:09:55","date_gmt":"2026-05-04T17:09:55","guid":{"rendered":"https:\/\/aulasesecs.ipportalegre.pt\/ocapotejornal\/?p=358"},"modified":"2026-05-04T17:09:55","modified_gmt":"2026-05-04T17:09:55","slug":"um-dia-vais-ter-de-sair","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aulasesecs.ipportalegre.pt\/ocapotejornal\/2026\/05\/04\/um-dia-vais-ter-de-sair\/","title":{"rendered":"Um dia vais ter de sair"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca pensei que sair da minha zona de conforto tivesse uma data marcada. Mas teve. Veio num dia normal, com uma mala feita e um destino que ficava longe de tudo o que eu conhecia\u2026casa. Pensar que o lugar onde vivi toda a minha vida ia deixar de ser o meu ref\u00fagio soava estranho mas acima de tudo assustador. Parte de mim queria ir. Queria mudar, crescer, descobrir o que estava para al\u00e9m do que conhecia. Mas havia outra parte mais silenciosa, mas mais forte, que s\u00f3 queria ficar no aconchego do seu lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 incr\u00edvel o efeito que uma mala feita causa. Levamos muito mais do que meras roupas. Despedidas, sil\u00eancios e sobretudo l\u00e1grimas tamb\u00e9m fazem parte dessa mala. L\u00e1grimas de um cora\u00e7\u00e3o que percebe que o que antes era conforto est\u00e1 prestes a transformar-se em desconhecido. Sair custa mas \u00e9 necess\u00e1rio. Crescer d\u00f3i mas \u00e9 fundamental. Estarmos fora da nossa zona de conforto \u00e9 essencial. E estar fora do nosso conforto \u00e9 enfrentar o desconhecido mesmo quando tudo em n\u00f3s pede para ficar onde \u00e9 seguro. \u00c9 aprender a lidar com o desconforto, com o sil\u00eancio e com o medo de falhar. A minha zona de conforto eram as minhas pessoas, as que viviam comigo, as que me conheciam e sabiam-me ler de cor. Mas e quando se sai dessa zona? Quem v\u00e3o ser as minhas pessoas de conforto? Um dia vais ter de sair. N\u00e3o s\u00f3 da tua zona de conforto, mas do teu quarto, da tua casa, da tua rotina. Vais ter de deixar para tr\u00e1s tudo o que \u00e9 certo para descobrir quem \u00e9s sem isso. \u00c9 exatamente, nesse sil\u00eancio, que percebo que sair da minha zona de conforto n\u00e3o foi apenas deixar a minha casa para tr\u00e1s. Foi tamb\u00e9m deixar a minha timidez ou pelo menos, aprender a enfrent\u00e1-la. Quando estamos na nossa zona de conforto n\u00e3o precisamos de ser faladores nem comunicativos. Meio que falam por n\u00f3s. Se tenho vergonha algu\u00e9m ir\u00e1 falar por mim. Isto acontece constantemente. Alguns chamam-lhe conforto, eu diria que \u00e9 um p\u00e9ssimo h\u00e1bito. Quando sa\u00edmos dessa bolha voltamos a ser rec\u00e9m-nascidos. Voltamos a ser fr\u00e1geis e pequeninos. Temos medo, vergonha e receio daquilo que n\u00e3o conhecemos. E \u00e9 a\u00ed que tudo come\u00e7a outra vez. N\u00e3o com certezas, mas com d\u00favidas. N\u00e3o com seguran\u00e7a, mas com coragem. Chegar \u00e0 universidade foi exatamente isso. Um recome\u00e7o. Corredores cheios de pessoas que n\u00e3o me conheciam, vozes que n\u00e3o me eram familiares. E isso assusta. Assusta mais do que sair de casa. Porque fora dela, deixamos de ter algu\u00e9m que fala por n\u00f3s. Sa\u00ed do carro dos meus pais e senti o meu cora\u00e7\u00e3o a apertar como se quisesse ficar para tr\u00e1s. Olho ao meu redor e, de repente, sou eu. S\u00f3 eu. O primeiro dia chegou. E com ele chegou a altura de come\u00e7ar a deixar a timidez em casa e despedir-me dela de uma vez por todas. Muitas pessoas ao meu redor mas nenhuma era casa, nem pouco mais ou menos. Foi um choque quando me caiu a ficha de que estava realmente na universidade sozinha. Tive de falar sem conhecer quem me ouvia. Tive de procurar saber quando eu era de ficar escondida. Tive de me abrir quando eu era fechada. A solid\u00e3o inicial aterrorizou-me, fez-me pensar que n\u00e3o era capaz, que n\u00e3o queria fazer isto. Mas eu queria isto, queria sair da rotina, queria o novo e o desconhecido. Mas quando ele chegou, estremeci, \u00e9 como se a nossa zona de conforto fosse a nossa manta quando nos aquece e fora dela o frio que sentimos quando estamos destapados. Demorou tempo at\u00e9 o novo se tornar familiar. Mas n\u00e3o foi sempre assim. Passou-se um ano e um \u201col\u00e1\u201d deixou de custar tanto. Um e outro rosto come\u00e7ou a tornar-se familiar. Uma rotina come\u00e7ou a nascer. E sem dar conta, aquilo que era estranho come\u00e7ou a tornar-se acolhedor. Talvez isso seja crescer. N\u00e3o deixar de ter medo, mas aprender a viver com ele. Porque a zona de conforto nunca desaparece. Ela muda de lugar. E, sem percebermos, come\u00e7amos a constru\u00ed-la outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No meio de tudo isto, fui percebendo que sair n\u00e3o foi s\u00f3 afastar-me de um lugar, foi aproximar-me de mim. Longe do que sempre me protegeu, tive de aprender a ouvir a minha pr\u00f3pria voz, mesmo quando ela sa\u00eda baixinho. A timidez que antes me acompanhava em tudo foi ficando para tr\u00e1s, quase sem fazer barulho, at\u00e9 se perder no caminho. Fui mesmo assim, com o cora\u00e7\u00e3o apertado, com saudade e com medo. E foi a\u00ed que cresci. Hoje sei que me adaptei, que me encontrei em peda\u00e7os que nem sabia que existiam, e que constru\u00ed um novo lugar dentro e fora de mim. Uma segunda casa. Percebi que sair da zona de conforto n\u00e3o \u00e9 perder-nos, \u00e9, aos poucos, voltarmos a n\u00f3s, \u00e9 a melhor chave para abrir o cofre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cr\u00f3nica de: Denisa Barbu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca pensei que sair da minha zona de conforto tivesse uma data marcada. Mas teve. Veio num dia normal, com uma mala feita e um destino que ficava longe de tudo o que eu conhecia\u2026casa. 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