
A música popular brasileira funcionou como uma das ferramentas mais sofisticadas de resistência, debate político e mobilização social da nossa história, transformando os palcos em comícios e as metáforas em escudos durante os anos de ditadura militar.
Logo após o golpe de abril de 1964, quando a esquerda intelectual e artística ainda tentava entender a nova realidade de cassações e repressão, o teatro e a música uniram forças para abrir o primeiro grande canal de contestação pública através do Show Opinião.
Idealizado por integrantes do Teatro de Arena e do Grupo Opinião no Rio de Janeiro, o espetáculo cruzava a realidade do morro, do sertão e da juventude urbana, trazendo ao palco Nara Leão, Zé Kétti e João do Vale sob a vigilância constante de agentes do DOPS.
O destino da obra mudou drasticamente quando Nara Leão precisou se afastar por problemas de saúde e indicou uma jovem baiana de dezoito anos chamada Maria Bethânia para substituí-la. Com uma postura visceral, dramática e uma voz grave arrebatadora, Bethânia chocou o público ao interpretar a canção Carcará.
Ela transformou o pássaro do sertão que pega, mata e come em uma analogia direta à sobrevivência contra a miséria programada e a opressão do Estado, recitando dados sobre a migração nordestina provocada pela fome e consagrando o show como um marco da resistência cultural.
De autoria, Matheus Scofano, 1ºano Jornalismo e Comunicação.

Deixe um comentário